Alunos agressivos, defasagem, currículo ‘engessado’: professores encaram sensação de impotência após pandemia

24 maio 2023
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Docentes sofrem com sobrecarga de trabalho e emocional ao voltar às aulas presenciais. Série especial discute os desafios do ensino depois da crise sanitária. Professores relatam problemas de saúde mental no pós-pandemia

O dia a dia de Juliana Brites é cercado por crianças e adolescentes. Professora do ensino fundamental da rede pública de Ribeirão Preto (SP), ela sente que a carga emocional dos profissionais da educação ficou ainda mais pesada após a pandemia e dos episódios de violência nas escolas.

Ela descreve os sentimentos que permeiam a volta às salas de aulas após dois anos vivendo no ambiente online.

“Agonia, angústia e ansiedade pra fazer cumprir seu papel”, resume a professora.

Esta semana, a EPTV, afiliada da TV Globo no interior de São Paulo, faz uma série de reportagens que tratam dos desafios no ambiente escolar após a pandemia. Na quinta-feira (25), a segunda edição do fórum "Diálogos da Educação" debate principalmente as condições socioemocionais de professores e alunos.

Professora Juliana Brites olha para cartazes fixados na USP de Ribeirão Preto, SP

Reprodução/EPTV

Mudança de comportamento

Após a pandemia, os professores podem até ser os mesmos, mas os estudantes voltaram bem diferentes. “Mudou tudo. Mudou o comportamento dos alunos no sentido de se socializarem. Eles perderam esse tato, esse costume de viver em sala de aula”, diz Juliana.

O sentimento dos últimos anos é de perda, explica Sérgio Kodato, psicólogo especializado em psicologia escolar e professor coordenador do grupo de pesquisa Observatório de Violência e Práticas Exemplares, da USP de Ribeirão Preto.

"O professor perdeu muito. Tanto em termos da sua autoridade em sala de aula, quanto em matéria de instrumentos, conhecimentos e preparação pedagógica. Hoje, eles não conseguem mais controlar efetivamente a sala de aula. Isso causa uma sensação de impotência", diz Kodato.

Sérgio Kodato é coordenador do grupo de pesquisa Observatório de Violência e Práticas Exemplares, da USP de Ribeirão Preto

Reprodução/EPTV

As salas de aulas são mais do que um local de aprendizagem: são um ambiente de convivência. Lá, os estudantes compartilham amizades, companhias, desafetos, intrigas e discussões. Desde antes da pandemia, existiam diferenças entre os alunos do mesmo ano.

“Nunca foi uma sala uniforme”, garante Juliana. Mas ficou ainda mais difícil educar crianças e adolescentes. “A gente não consegue superar discordâncias como era antigamente”, revela a professora.

A agressividade dos jovens gera casos de desrespeito aos colegas e professores, bullying entre estudantes e entre amigos. As discordâncias aparentemente insuperáveis podem resultar, até mesmo, em casos de violência.

Com isso, o medo assumiu o topo de uma extensa lista de dificuldades que professores enfrentam para conseguir exercer sua profissão. Dentre os itens, estão os baixos salários, a falta de infraestrutura e as cobranças.

“É bom ser professor, mas não é fácil ser professor”, resume Juliana.

A professora Juliana Brites dá aulas pro ensino fundamental da rede pública de Ribeirão Preto, SP

Reprodução/EPTV

Currículo engessado

Para Juliana, a maior dificuldade em ser professora é a necessidade de seguir um currículo "engessado”, principalmente após a pandemia. A maioria dos estudantes voltou às salas de aula com uma defasagem na aprendizagem.

A sequência natural dos conteúdos a serem aprendidos por estudantes do ensino fundamental, segundo Juliana, já não funciona mais.

“Às vezes você está com um aluno, passando sua disciplina: ‘Oh, então vamos separar o sujeito do predicado’. ‘O que é sujeito, professora? O que é predicado?'. (...) Como o professor vai preparar uma aula pensando que ele tem que cumprir o currículo, mas o aluno está precisando voltar três passos?", exemplifica a professora.

Os questionamentos não param por aí, pois se tornam questões pessoais. A angústia de não conseguir seguir esse currículo, algo que é cobrado tanto dos professores quanto das escolas, é frustrante.

“O problema é comigo? Será que vale a pena continuar? (...) Até quando a gente vai continuar dessa forma, cumprindo um currículo sem uma intervenção?”, questiona Juliana.

Professora da rede pública de Ribeirão Preto, Juliana Brites olha para cartaz fixado na USP

Reprodução/EPTV

Adoecimento mental

Para Juliana, a intervenção necessária seria uma política pública voltada para a saúde mental de alunos e professores.

"O aluno com problema de comportamento, de aprendizagem, reflete na gente e um professor com algum problema psicológico diminui o desempenho", afirma.

Kodato, que trabalha há anos com saúde emocional dos professores, lista as possíveis consequências dessa sensação de impotência diante da falta de aprendizagem dos alunos.

"Vai gerar angústia, ansiedade e depressão. Síndrome do pânico, ideação suicida, e tudo isso acaba resultando em dependência química, alcoolismo, outros tipos de vícios que acabam afundando o professor ainda mais neste quadro", explica.

Juliana vê todos os problemas citados por Kodato ao seu redor, entre colegas de profissão de Ribeirão Preto e de todo o Brasil. "Vejo muito professor sendo afastado pelo fato de estar em depressão ou ansioso, se cobrando além da conta", pontua.

A professora Juliana Brites e o professor Sérgio Kodato em Ribeirão Preto, SP

Reprodução/EPTV

Sobrecarga

A sobrecarga de trabalho é outro fator que colabora para esse cenário. "Os salários baixos fazem com que o professor procure mais aulas para poder tapar os gastos", afirma Juliana. Mas o expediente não termina na sala de aula: em casa, há preparações de aulas, correção de exercícios, provas e mais. Como se cuidar com uma carga tão pesada?

"Não se cuida. Ou se afasta, pra poder se cuidar, ou vai empurrando com a barriga até melhorar ou até o momento em que a gente não vê saída", desabafa Juliana. Por isso, para ela, o acompanhamento psicológico e psiquiátrico de alunos e professores é urgente. "A gente vai esperar outra pandemia para tomar uma providência?", questiona.

Para Kodato, isso é uma espécie de trabalho estressante e degradante.

"Afeta o sentido da profissão dele enquanto professor. Na hora que você perde o sentimento de ser professor, automaticamente você não tem mais motivação, vai esperar a sua aposentadoria, seus dias de descanso", explica.

O psicológo e professor Sérgio Kodato

Reprodução/EPTV

Amenizar os problemas

Os anos estudando a saúde mental dos professores mostraram a Kodato a necessidade de encarar isso como uma questão coletiva. "O problema dele não é dele individual, é um problema na categoria dos professores", afirma.

Segundo ele, sem uma política pública consistente, a categoria deve se manter unida para amenizar os efeitos desse adoecimento coletivo.

"Professores que não atribuem a si a doença, mas ao sistema social, e buscam ter uma atividade ativa política e sindical. Isso se mostrou muito mais efetivo em termos de saúde mental do que o tratamento medicamentoso", afirma.

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FONTE: G1 Globo


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