‘Avaliador de marcas’: golpe com nome da Shein atrai vítimas por YouTube, Google e apps

30 jun 2023
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Loja do Google derrubou apps que divulgavam suposto serviço relacionado à Shein por violação da política de uso. Mas empresa entende que vídeos que promovem golpe não desrespeitam regras do YouTube. O golpe que usa o nome da Shein para prometer dinheiro fácil em troca de avaliar roupas continua fazendo vítimas com a ajuda de vídeos no YouTube, onde dezenas de supostos avaliadores fazem resenhas positivas de sites que promovem esse falso serviço.

Os canais onde esse conteúdo é postado também pagam anúncios para aparecerem no topo dos resultados de pesquisa do Google, com links que levam para esses sites e para os vídeos.

Aplicativos de fachada para avaliadores, uma estratégia que o g1 denunciou, também seguem disponíveis na plataforma Google Play Store, sendo que alguns deles chegaram ter a mais de 10 mil downloads e receberam selo de segurança da loja de apps.

Faz mais de dois meses que a Shein alertou que não tem envolvimento com esse tipo de ação e que as promoções da loja chinesa são divulgados em canais oficiais. O comunicado da empresa veio na época em que influenciadores promoviam o golpe no Instagram.

Aplicativos e sites do golpe podem assumir o nome de "Avaliador de Marcas"

Reprodução

Google derruba apps, mas mantém vídeos

No último dia 22, o g1 apontou para o Google exemplos de três aplicativos que promoviam o suposto serviço de avaliação e que podiam ser baixados no Google Play Store. Dois deles tinham o selo de segurança.

Um dia depois, a plataforma derrubou os três apps, afirmando que eles violavam as regras da loja de aplicativos. Em nota, a empresa disse que "o Google Play tem um conjunto robusto de políticas que visam manter os usuários seguros e que devem ser seguidas por todos os desenvolvedores. Não permitimos, por exemplo, apps que expõem usuários a produtos financeiros enganosos e prejudiciais".

O g1 também mandou para o Google os links de dois vídeos que divulgavam no YouTube — plataforma que também pertence à "big tech" — a promessa de dinheiro fácil e também usam o nome da loja chinesa.

No entanto, o YouTube respondeu que não viu desrespeito às regras nas publicações.

Mas a própria plataforma divulga entre as diretrizes do YouTube que não devem ser postados vídeos com "Golpes: conteúdo que oferece brindes em dinheiro, esquemas de enriquecimento rápido ou de pirâmide (envio de dinheiro sem um produto tangível em uma estrutura de pirâmide)".

Entre os tipos de conteúdo que "não são permitidos no YouTube", a página dá como exemplo "fazer promessas exageradas, como afirmar que os espectadores podem enriquecer rapidamente ou em que um "tratamento milagroso pode curar doenças crônicas como o câncer" e "vídeos com promessas como 'Você vai ganhar R$ 50 mil amanhã se fizer isso!'", entre outros casos.

Os dois exemplos de vídeos enviados ao YouTube tinham os mesmos padrões de outros 32 vistos pelo g1. A relação completa também foi enviada ao Google. Dos 34, apenas um vídeo não estava mais disponível nesta quarta (28) porque tinha se tornado privado.

'Um valor por volta de R$ 1.300'

A busca por "Money Looks", marca associada a um dos apps da fraude, excluído do Google Play após reportagem do g1, levou a alguns desses vídeos no YouTube.

No topo dos resultados, por conta de anúncios pagos, aparece o link de um vídeo que tenta convencer a audiência a baixar o aplicativo.

"Realmente funciona. Em questão de um mês, em alguns dias, eu consegui fazer um valor por volta de R$ 1.300", diz a mulher que grava no vídeo, logo no primeiro minuto de fala.

O mesmo ocorreu no buscador do Google, na pesquisa por "Avaliador de Marcas", outro nome que os aplicativos e sites relacionados ao golpe podem assumir. A maioria dos vídeos no YouTube foi encontrada com esse termo de pesquisa.

As consultas foram realizadas no dia 21 de junho.

GALERIA: youtubers promovem aplicativo e sites que dão golpe

Como são os vídeos

O g1 analisou 34 vídeos que fazem propaganda dos sites com a proposta de remuneração por avaliar roupas da Shein. Os conteúdos somam cerca de 80 mil visualizações em 18 canais, que, juntos, têm 6,6 milhões de inscritos.

Os vídeos seguem um padrão:

pessoas anônimas gravam o próprio rosto, em vídeo que tem como proposta explicar se o serviço é golpe ou não;

o título do vídeo e tom inicial da fala têm um tom crítico, como se fossem alertar que a promessa é uma fraude;

os youtubers até pedem cuidado com "sites falsos", que seriam os responsáveis pelas pessoas caírem em golpes;

no entanto, no decorrer do vídeo a pessoa garante que conseguiu fazer dinheiro fácil ao avaliar roupas. Alguns dizem que receberam até R$ 1.300 em um mês;

A pessoa pode não citar o nome da Shein, mas a aba de descrição do vídeo tem o nome da empresa;

a aba de descrição ainda mostra os supostos "sites oficiais": endereços repletos de indícios da fraude (veja abaixo como identificar), acompanhados da marca da Shein ou da "Money Looks", associada a apps e sites derrubados por promoverem o golpe;

a mesma pessoa pode aparecer em vários canais, gravando mais de um vídeo, sempre com o mesmo padrão e objetivo de convencer usuários que a proposta é confiável.

A reportagem não conseguiu identificar as pessoas que gravam os vídeos para questionar por que promovem sites e aplicativos associados ao golpe que usa o nome da Shein, por isso os rostos foram borrados.

Também não foi possível entrar em contato com os canais que foram demonstrados nas imagens acima.

Aplicativos de fachada

O golpe também é efetuado em aplicativos disponíveis no Google Play Store. Três deles, chamados de "Avaliador de Marcas", estavam ativos na plataforma na tarde do dia 21 de junho.

Dois aplicativos tinham mais de 10 mil downloads e eram verificados pela "Play Protect", selo do Google para confirmar a segurança do aplicativo aos usuários.

Um aplicativo com o mesmo propósito, chamado de "Avaliador de Roupa Money Looks", só foi derrubado da plataforma após reportagem do g1 mostrar que o produto continuava a fazer vítimas.

Os aplicativos estão repletos de queixas de fraude na aba de comentários do Google Play. Já os vídeos no YouTube têm diversos comentários positivos, elogiando o suposto serviço.

Esses comentários positivos, no entanto, têm indícios de fraude, segundo Fabio Assolini, diretor de Pesquisa da Kaspersky, empresa especializada em segurança digital.

"Ou as contas são bots, ou seja, contas falsas, criadas e controladas pelo fraudador. Ou são contas que pertencem a pessoas verdadeiras, cuja senha vazou em algum momento", afirma.

Veja em FOTOS como funciona o app da "Money Looks", denunciada por fraude na Shein

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Como identificar sites com fraude

Os especialistas entrevistados pelo g1 citam características típicas dos sites com fraudes. Entre elas está:

a promessa de dinheiro fácil;

mensagens que criam sensação de urgência para te apressar a conseguir uma recompensa;

endereços sem contato de suporte ao consumidor, informações sobre cuidados com privacidade e uso dos dados.

Caso queira identificar outras deficiências técnicas de sites fraudulentos, é importante entender alguns conceitos básicos de hospedagem de sites e certificados de segurança.

A pedido da reportagem, o engenheiro da computação e chefe de Tecnologia da WibooCria, Edizon Basseto, apontou as fragilidades técnicas em um dos sites recomendados pelos youtubers.

A prioridade inicial é olhar se o site tem o protocolo "HTTPS", o "cadeado de segurança" que fica ao lado do endereço do site e garante que a conexão é segura.

"Sites com HTTPS têm sua comunicação criptografada, impedindo que invasores interceptem os dados transmitidos entre as duas partes", explica Basseto. "Não sendo [HTTPS], fuja."

Como um site associado à marca "Money Looks" tem esse protocolo de segurança, o especialista verificou outros pontos técnicos que demonstram a fragilidade da falsa promessa:

Ao clicar nos supostos "selos de segurança" do site, percebe-se que eles não passam de imagens, pontua Basseto. "Você não é levado para nenhum site que fez a análise real das fragilidades", explica;

O certificado de segurança do site ainda é emitido por uma empresa que cria o documento de forma gratuita, ou seja, qualquer pessoa pode gerar o documento para dizer que seu site é seguro.

Para verificar o certificado de segurança é necessário clicar no cadeado ao lado do endereço.

No Google Chrome, após clicar no cadeado, clique em "A conexão é segura" e depois em "O certificado é válido".

O que diz o Google

Por meio de assessoria de imprensa, o Google afirmou que os três aplicativos enviados pela reportagem foram removidos por violar as políticas da empresa.

Os vídeos do YouTube, no entanto, foram mantidos, por não violarem as diretrizes da plataforma. Veja abaixo o posicionamento completo da empresa sobre os aplicativos.

"Os aplicativos mencionados foram avaliado e removido por violar as políticas de Google Play.

O Google Play tem um conjunto robusto de políticas que visam manter os usuários seguros e que devem ser seguidas por todos os desenvolvedores. Não permitimos, por exemplo, apps que expõem usuários a produtos financeiros enganosos e prejudiciais. Contamos com uma combinação de inteligência de máquina, revisores humanos e denúncias de usuários para identificar conteúdo impróprio. Levamos muito a sério as denúncias de segurança contra aplicativos e, se descobrirmos que um app violou nossas políticas, agimos imediatamente. Nossos usuários também são protegidos pelo Google Play Protect, que avisa os usuários ou bloqueia aplicativos maliciosos identificados em dispositivos Android.

Qualquer pessoa que acredite ter encontrado um aplicativo que esteja em desacordo com as nossas regras pode denunciá-lo na Google Play – na página do app, basta tocar no botão de três pontos e, em seguida, ‘Sinalizar como impróprio’."

Veja abaixo o posicionamento completo da empresa sobre os vídeos no YouTube.

"Todos os conteúdos no YouTube precisam seguir nossas Diretrizes de Comunidade e contamos com uma combinação de sistemas inteligentes, revisores humanos e denúncias de usuários para identificar material suspeito.

Também informamos que o conteúdo citado não viola as diretrizes da plataforma."


FONTE: G1 Globo


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